Talaván chegou aos jornais nacionais e aos programas de televisão em horário nobre graças aos “anjos maus” que decoram a abóbada da ermida do Santo Cristo. São esgrafitos de figuras de anjos do século XVII intervencionados com presas e chapéus, embora ainda não se saiba ao certo porque estão ali, estas imagens provocam um impulso de curiosidade perante o desconhecido. No entanto, há muito mais que faz de Talaván um lugar a descobrir.

O dicionário diz que brenha é uma terra pedregosa, quebrada e um matagal, e foi num lugar tão agreste, nas margens do Tejo, que Talaván foi fundada. As origens remontam ao passado e tornou-se conhecida como um ponto de passagem entre o norte e o sul do grande rio. Em Talaván, graças a uma série de cordas e roldanas, era possível atravessar o Tejo em barcos antes da construção da barragem de Alcântara. Os viajantes tinham de chegar à vila para atravessar para a outra margem e a necessidade deste serviço permitiu o reconhecimento de Talaván, uma bonita vila, rodeada de prados e com encostas que lhe dão uma graça marinha no coração da província de Cáceres.
Em Talaván, graças a uma série de cordas e roldanas, os barcos atravessavam o Tejo antes da construção da barragem de Alcântara

La Breña, símbolo de Talaván
No cimo da íngreme montanha nasce uma nascente canalizada que chega à aldeia sob a forma de uma fonte, La Breña, lugar emblemático e símbolo de Talaván. Era aqui que as mulheres da aldeia se reuniam para lavar nos tanques, que recolhem a água que sai das bicas escalonadamente. “Aqui havia muitas discussões e muitas gargalhadas”, “aquela que não tinha sabão, se pudesse, lavava com o de outra às escondidas”, diz Sebastián, reformado na aldeia, após percorrer as estradas espanholas como camionista. Na fonte, a água sai límpida e fresca e ele recolhe-a em garrafões de plástico, atrás dele um e outro vizinho, “é a melhor água do mundo”, diz outro enquanto enche a sua garrafa. “Há aqui umas letras muito importantes”, diz-nos enquanto aponta para a pedra esculpida que fala do século XVII, enquanto as máscaras pré-romanas – semelhantes às “caras celtas” que adornam algumas casas de Acebo – cospem água durante todo o ano.

A igreja e a ermida do Santo Cristo testemunhas silenciosas
A igreja de Nossa Senhora da Assunção é um templo gótico renascentista que emerge entre as casas brancas, com o seu campanário com um pequeno sino e uma alta e robusta torre sineira que aguarda restauro nas alturas.

O teto da capela foi restaurado e pode ver-se claramente a abóbada decorada com os “anjos maus”
Nas proximidades, encontra-se a ermida do Santo Cristo, chamada “cemitério velho”, porque foi outrora terra santa, tal como os arredores da igreja. Na ermida, o teto foi restaurado e a abóbada decorada com os “anjos maus” é bem visível. No esgrafito das cabeças dos anjos e das suas asas, alguém usou tinta vermelha para os transformar em seres diabólicos, com duas filas de dentes pontiagudos na boca e com capuzes. Há várias teorias sobre estas intervenções, mas nenhuma confirmada até à data. Outros vestígios de esgrafitos podem ser vistos numa arcada próxima, e os arredores têm o ar sepulcral e enigmático de um cemitério abandonado.

Locais de encontro nas margens do rio e no cimo do monte
A ermida de Nossa Senhora do Rio, padroeira de Talaván, ergue-se branca sobre as margens do Tejo, domado desde 1969 pela barragem de Alcântara. Foi erigida em memória da antiga ermida da margem oposta, que agora está submersa. Era aqui que passavam os barcos que serviam de ponte móvel sobre o rio. Os habitantes da aldeia costumam descer até lá durante as tardes e é o local onde, na primavera, se celebra a romaria, que enche os arredores de alegria e música. No verão, a afluência de pessoas é frequente, realizando-se aí atividades desportivas e de canoagem para aproveitar este valioso recurso. Também durante as festas da padroeira, a 8 de setembro, a música e o ambiente festivo deslocam-se para as margens do curso de água, fazendo parte do quotidiano da aldeia.

Por outro lado, a melhor vista de Talaván encontram-se na ermida da Virgem de La Soledad, no Cerro Calvario. Abaixo, a aldeia estende-se com as suas suaves elevações, a linha traçada pelo rio e, no horizonte, Cañaveral, Casas del Millán e as íngremes montanhas de Monfragüe. É também um ponto de encontro dos habitantes e um lugar de festa durante a peregrinação que celebra Las Candelas. Há também um banco enorme e alto, ideal para fotografias divertidas.

O forno de pão Virgen del Río
Batizado com o nome da padroeira, o forno de pão está aceso desde 1956, e uma terceira geração de padeiros alimenta-o com lenha de azinheira proveniente do enorme montado. Deste forno artesanal saem pães, roscas, doces e grandes pães de massa mãe que são servidos em tostas, com os mais diversos ingredientes, nos melhores restaurantes de Cáceres, a apenas 30 quilómetros de distância.
Os proprietários conservam também uma coleção de carimbos, daqueles que as famílias usavam para marcar o pão quando traziam a sua própria massa para cozer. Está situado na Plaza de los Herradores e é uma paragem obrigatória para os visitantes. O cheiro a pão percorre as ruas da aldeia, algumas das quais estão decoradas com pequenos arcos de tijolo que lhes dão um toque muito pessoal.

Talaván é talvez um pequeno ponto no mapa, com menos de mil habitantes, que triplicam no verão, mas é grande em surpresas agradáveis.

Talaván, la tierra de breña a orillas del Tajo que alberga los “ángeles malos”
Publicado em agosto 2025
Tradução Ângelo Merayo
Fotos: Andy Solé






